DIÁRIO NA SOMBRA

Fernando Pessoa

“Lembras-te ainda de mim?
Tu conheceste-me há muito tempo…
Eu era aquela criança triste de quem tu não gostavas,
E por quem depois, pouco a pouco, te foste interessando
(Pela angústia, e a tristeza, e mais qualquer cousa),
E de quem tu acabaste por gostar, quase sem o saber;
Lembras-te? A Criança triste que brincava na praia
Sozinho, longe dos outros, sossegadamente,
E de vez em quando lhes lançava um olhar triste mas sem pena…
Vejo que olhas para mim disfarçadamente de vez em quando…
Estás recordado? Queres ver se te recordas? Eu sei…
Sem saber sentes ainda no meu rosto calmo e triste
A criança que brincava sempre longe dos outros
E de vez em quando olhava tristemente para eles, mas sem pena?
Sei que olhas, e que não compreendes qual a tristeza
Que me faz triste…
Que não é pena, nem é saudade, nem desgosto, nem mágoa…
Ah, é a tristeza
Daquele a quem, no grande solo antenatal,
Deus disse o Segredo –
O segredo da vacuidade absoluta das cousas,
E da ilusão do mundo…
A tristeza imparável
Daquele que sabe que nada serve ou vale,
Que o esforço é um absurdo desgaste,
Que a vida é um espaço vazio,
Porque a desilusão vem sempre atrás da ilusão
E parece que a Morte é o sentido da Vida…
É isto, mas não é só isto, que tu vês no meu rosto
E faz com que olhes para mim, de vez em quando, disfarçadamente…
Há, além disto,
Aquele pasmo negro, aquele arrepio sombrio,
Que seria na alma
O ter havido um segredo de Deus
Dito no grande solo antenatal, quando a vida
Não raiava ainda ao longe
E todo o Universo luminoso e complexo
Era ainda um destino materialmente a cumprir.
Se isto me não define, nada me define
E isto não me define –
Porque o segredo que Deus me disse não era só isto
Houve outra cousa que é hoje estar do lado do irreal,
O gozo que há nisso, o meu dom de compreender o incompreensível,
O meu sentimento daquilo que não se pode sentir,
O meu garbo interior de imperador sem império,
O domínio de sonhos arquitectados na luz.
Sim, é isto que põe
Uma velhice anterior à minha infância na minha face
E no meu olhar uma angústia interior à minha alegria.
Olhas-me disfarçadamente, de vez em quando,
E não me compreendes,
E tornas a olhar, disfarçadamente e sempre…
Sem Deus não há vida nesta vida
E não poderás nunca compreender.” 9/1916

Publicado por

The found daughter!

Brazilian woman, crazy about good music,nature and books =) I love to write since I remeber! My passion grows stronger as a walk through this crazy adventure with Jesus, my Lord and savior, redeemer and best friend! =)

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